“Ser ilustrador não é profissão, é coisa de quem não quer trabalhar”. Foi com esta "certeza" que vivi a maior parte da minha vida, e ainda hoje respondo perguntas como: “Você desenha? Isto dá dinheiro?” ou “Que legal, você desenha! Mas trabalha com o quê?”.
Para meus pais, desenhar era uma brincadeira e o que eu precisava mesmo era ter uma profissão sólida, como ser médico, engenheiro, ou qualquer outra coisa que o valha. Nem a medalha de Honra ao Mérito (se bem que isto não paga as contas) ou as classificações em concursos de desenho, serviam como justificativa para ser ilustrador.
Só fui iniciar na profissão (isto é, recebi o meu primeiro pagamento, em dinheiro, por uma ilustração) em 1997. E é claro que aos 27 anos já havia tentado ter diversas "profissões dignas" (mesmo nunca tendo sido médico ou engenheiro), mas acabei me cansando e resolvi fazer uma última tentativa na única coisa que sabia fazer desde pequeno, desenhar.
Agora, falando como professor de desenho, isto mostra para uma boa parte das pessoas que nem todos os ilustradores são prodígios que começam desde cedo e aos 18 anos já tem seus nomes consagrados na profissão. Às vezes, por vários motivos, podemos demorar um longo tempo até as coisas funcionarem. Só não podemos desistir.
É claro que os primeiros trabalhos não foram maravilhas, mas serviram para que eu aprendesse sobre o que ser um profissional na área, a respeitar prazos, manter a qualidade, e por aí vai.
Com relação aos valores pagos por ilustrações, pretendo escrever um “post” específico sobre o assunto, já que tem uma grande diferença entre o valor utópico, o valor justo, o valor de mercado, e o valor de exploração.
Uma das diversas decisões que um ilustrador tem que tomar é se ele pretende ser um autônomo (Freelancer) ou um empregado, com carteira assinada e tudo mais. Quando me perguntam sobre isto, minha resposta é: “Depende do que você está procurando para a sua vida."
Se você quer ter estabilidade, férias, 13º salário, horário certo de trabalho e outros benefícios que só uma carteira assinada podem trazer, é melhor trabalhar como ilustrador registrado para um estúdio, mas você terá um salário fixo, não importando o quanto trabalhe.
Agora se você quiser ganhar mais, determinar seu horário de trabalho, ter uma arte mais pessoal, então é melhor ser um freelancer, mas sabendo que às vezes não terá nenhum trabalho, isto é, nenhum dinheiro, não terá férias, 13º salário, aposentadoria, e outros benefícios, a menos que você planeje.
Tire da cabeça que ser freelancer é melhor porque não tem patrão. O editor será seu patrão, e se você trabalhar para mais de uma editora ao mesmo tempo serão vários patrões, todos com pressa para que o trabalho seja entregue no prazo.
Então cabe mesmo a você escolher o seu caminho. Não tem um pulo do gato, ou atalho que te faça um ilustrador melhor. Será a prática e a constante busca pelo conhecimento que te trará o reconhecido. Treine, desenhe, produza, e é claro, monte um portifólio e apresente aos editores. Não adianta nada desenhar bem, e só receber elogios dos pais, cônjuges e amigos.
Boa sorte!
Abraços!!!